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Obra de fogo

Lama, detrito, entulho, lixo e côdeas:
Onde estão as vassouras que me varram,
Onde estão as mangueiras, as lixívias,
Que me lavem dos escarros que me escarram?

Onde estão as purezas mais profundas,
As faces que eram minhas, da vergonha,
A língua original, antes que fosse
A vida da mentira e da peçonha?

Onde estão os meus olhos sem remela
E a brancura da alma, grave e nua?
Quem partiu os espelhos que falavam,
Quem me pôs espantalhos nesta rua?

Quem foi e quem sujou? Quem, e porquê?
Mas na funda estrumeira vai lavrando
Lento, seguro e oculto o grande incêndio
Que será a resposta do teu quando.


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SARAMAGO, José. Provavelmente Alegria. 3a. ed. Lisboa: Caminho, 1987.