A um cristo velho
Se podes quanto dizem, Cristo velho,
De caruncho mordido, desprezado,
Coberto de poeira que envenena
A negrura da chaga do teu lado,
Se podes quanto dizem, quem te crê
Ou te traz nessa crença maltratado,
Podes fazer agora o que não ousam
Os que fingem de amor e de sagrado:
Vem a ser esta missa doutra leim
A comunhão de Cristo e do pecado,
Eis a fé do poeta que te encontra
No teu pasmo de deus desafiado.
_______
SARAMAGO, José. Os poemas possíveis. 3a. ed. Lisboa: Caminho, 1981.
Se podes quanto dizem, Cristo velho,
De caruncho mordido, desprezado,
Coberto de poeira que envenena
A negrura da chaga do teu lado,
Se podes quanto dizem, quem te crê
Ou te traz nessa crença maltratado,
Podes fazer agora o que não ousam
Os que fingem de amor e de sagrado:
Vem a ser esta missa doutra leim
A comunhão de Cristo e do pecado,
Eis a fé do poeta que te encontra
No teu pasmo de deus desafiado.
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SARAMAGO, José. Os poemas possíveis. 3a. ed. Lisboa: Caminho, 1981.